quinta-feira, 30 de maio de 2013

DEPOIMENTOS DE PERSONALIDADES: EXPERIÊNCIAS DE LEITURA E ESCRITA

J. C. Violla

                                   

Bailarino, coreógrafo, ator e professor de dança

Dinâmico e cheio de vida, Violla encontra na literatura um contraponto para a sua agitada arte corporal: "A leitura é uma coisa absolutamente importante para mim", declara. Ela ajuda a concentração, me leva para dentro, me acalma e alimenta espiritualmente. Quem trabalha muito com o corpo geralmente passa a vida preocupado apenas em esticar a perna, alongar o braço, fazer belos arabescos, enfim, fica preso demais ao próprio físico. Eu não queria ficar assim. Queria “esticar a cabeça” também. Sou ávido por conhecer as coisas, saber mais. Faço questão de estar bem informado e antenado com o mundo.
Fonte: Depoimento feito ao site da Livraria Cultura em 2004.

                                                    Marilena Chauí
                        

Professora de Filosofia da USP

O livro é um mundo porque cria mundos ou porque deseja subverter este nosso mundo, considera a doutora em Filosofia Marilena Chauí: Eu costumo falar no esplendor do livro porque ele abre para mundos novos, ideias e sentimentos novos, descobertas sobre nós mesmos, os outros e a realidade. Ler, acredito, é uma das experiências mais radiosas de nossa vida, pois, como leitores, descobrimos nossos próprios pensamentos e nossa própria fala graças ao pensamento e à fala de um outro. Ler é suspender a passagem do tempo: para o leitor, os escritores passados se tornam presentes, os escritores presentes dialogam com o passado e anunciam o futuro.
Fonte: Depoimento feito ao site da Livraria Cultura em 2004.

Danuza Leão

                          
Jornalista e escritora

"Adoro ler, e leio qualquer coisa que chegue às minhas mãos, de bula de remédio a dicionário, é uma mania. Mesmo na infância, não brincava de boneca nem de casinha, mas devorava revistas em quadrinhos e livros. Só queria ficar no quarto lendo, lendo, lendo." Suas leituras nunca seguiram um critério, conforme esclarece: Se um amigo que me conhece bem indica um livro, vou lá e compro, e se encontrar um largado num avião também leio inteiro. E não me guio muito pela lista dos mais vendidos. Sou uma anarquista mental. Tudo que aprendi foi vivendo, e acho que tive uma vida muito rica. Aos 16 anos, meus amigos de todo dia eram Di Cavalcanti, Vinicius de Moraes e Rubem Braga. Foi através do convívio com pessoas excepcionais como eles que aprendi as coisas. Não saberia explicar os livros que li e a razão pela qual alguns me impressionaram mais. Que me desculpem os literatos, mas para mim ou um livro é bom ou não [...].
Fonte: Depoimento feito ao site da Livraria Cultura em 2004.

                                                  Newton Mesquita
                           

Pintor

Da mesma forma como coloca sua alma nas imensas e maravilhosas telas que pinta, o arquiteto e artista plástico Newton Mesquita busca, na literatura, uma comunhão com o universo revelado pelo autor: "Quando você vê um quadro e gosta muito, a sensação é a de que aquela imagem sempre esteve dentro de você. Com o texto é a mesma coisa: aquilo toca na sua essência e detona tantas ideias e fantasias que se torna parte de sua vida", explica. A leitura e a música são fundamentais na vida desse prestigiado artista: "Se eu pudesse ter mais duas profissões, gostaria de ser músico (já toquei piano em boates durante alguns anos) e de escrever muito bem, como o Rubem Fonseca", declara. Os livros me fascinam. Antigamente, quando eu era moleque, eles me pegavam pelas histórias, porque me davam a possibilidade de ir a outros países, conhecer outras civilizações, outras pessoas, ver como elas viveram, o que pensaram, descobriram e escreveram. Fui criado muito sozinho, e os livros eram meus companheiros. A leitura, nessa fase, é uma ginástica para a imaginação. Você fica imaginando os lugares, as situações, os personagens alguns tornavam-se amigos íntimos meus. Meu filho se chama Pedro por causa do Pedrinho do Sítio do Pica-pau Amarelo.
Fonte: Depoimento feito ao site da Livraria Cultura em 2004.

                                          Anna Verônica Mautner
                   

Psicanalista

Ainda bem que poetas existem para falar sobre a dor do ressentimento, sentimento horrível que nos faz culpar outros. Isso não passa de mera aparência, pois, na verdade, está na dor que surge de não ter podido triunfar sobre algum outro, que vemos malvado. O ressentimento fala sempre de derrota. E eu, que não sou poeta, fico só com o constrangimento de calar diante da estreiteza da minha linguagem. Não poetejo. Minha ciência e eu cá ficamos constritos e acanhados, porque nos vemos obrigados a nos esquivar de explicar tantos sentimentos, tão humanos.

Fonte: Folha de S.Paulo, 19 fev. 2004.

                                                Contardo Calligaris
                             

Psicanalista

A função essencial da literatura, a seu ver, é a de libertar o ser humano: A literatura é o catálogo das vidas possíveis e impossíveis. Quanto maior for nossa liberdade, mais necessário se torna ter um catálogo de experiências possíveis para poder exercê-las. Porque ninguém é capaz de inventar uma vida a partir de nada. A vida é inventada a partir de uma combinatória de sonhos que já foram sonhados. A literatura é um meio de aprender a sonhar a própria liberdade. Foi onde aprendi que podia e talvez precisasse viajar, “perder países”, como dizia Fernando Pessoa. Na literatura, descobri que havia alhures e que só esses alhures podiam dar algum sentido ao lugar onde, por acaso, eu tinha nascido.
Fonte: Depoimento feito ao site da Livraria Cultura em 2004.

                                                        Nina Horta
                    

Dona de bufê e autora de vários livros sobre culinária

A influência da leitura em minha vida? Foi até um exagero. Muitas vezes deixei de ver ou de viver coisas concretas porque estava lendo sobre elas. Mas é que ler me dá um prazer muito grande mesmo. Sou viciada em leitura, e isso já se tornou parte de mim. Na minha casa, não dá para andar de tanto livro. E quando viajo levo uma batelada comigo (escondido do meu marido). Acho que, hoje, os livros são minha única tentação em matéria de consumo. Se quero comprar algo, é livro. Não consigo nem imaginar como teria sido minha vida sem eles, pois é deles que vêm quase todas as minhas referências.

Fonte: Depoimento feito ao site da Livraria Cultura em 2004.

 Antonio Candido


Crítico literário e ex-professor de Teoria Literária na USP

As produções literárias, de todos os tipos e todos os níveis, satisfazem necessidades básicas do ser humano, sobretudo através dessa incorporação, que enriquece a nossa percepção e a nossa visão do mundo. [...]. Em todos esses casos ocorre humanização e enriquecimento, da personalidade e do grupo, por meio de conhecimento oriundo da expressão submetida a uma ordem redentora da confusão. Entendo aqui por humanização (já que tenho falado tanto nela) o processo que confirma no homem aqueles traços que reputamos essenciais, como o exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para com o próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o senso da beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor. A literatura desenvolve em nós a quota de humanidade na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos para a natureza, a sociedade, o semelhante.

Fonte: CANDIDO, Antonio. Direitos humanos e literatura. In: ______. Vários escritos. Rio de Janeiro: Ouro sobre azul, 2004.

Moacyr Scliar
                                

Médico e escritor

"Todos os dias eu sento e escrevo, mas nunca com o mesmo número de horas. Muita coisa eu jogo fora, pois acho que a cesta de lixo é a grande amiga do escritor."
Fonte: Correio Braziliense, 31 ago. 1996. D.A. Press.

                                                     Rubem Alves
                                       
Educador, escritor e teólogo

A literatura é um processo de transformações alquímicas. O escritor transforma - ou, se preferirem uma palavra em desuso, usada pelos teólogos antigos, “o escritor transubstancia” – sua carne e seu sangue em palavras e diz a seus leitores: “Leiam! Comam! Bebam! Isso é a minha carne. Isso é o meu sangue!”. A experiência literária é um ritual antropofágico. Antropofagia não é gastronomia. É magia. Come-se o corpo de um morto para se apropriar de suas virtudes. Não é esse o objetivo da Eucaristia, ritual antropofágico supremo? Come-se e bebe-se a carne e o sangue de Cristo para se ficar semelhante a ele. Eu mesmo sou o que sou pelos escritores que devorei... E se escrevo é na esperança de ser devorado pelos meus leitores.

Fonte: ALVES, Rubem. A beleza dos pássaros em voo. In: ___________. Na morada das palavras. 3. ed. Campinas: Papirus, 2003. p. 66.

                                             Nilson José Machado
                              


Professor de Didática da Matemática da USP

A LEITURA, A ESCRITA, O LUXO

Ler, escrever e contar é o que deveria resultar dos estudos escolares, diziam nossos avós. No antigo Egito, a leitura era ensinada a todos, mas o ensino do cálculo não era generalizado e a escrita era destinada apenas aos filhos das classes dominantes. Em Roma, os escravos que conduziam tais crianças à escola eram chamados “pedagogos”. Em latim, paidòs é criança, e agogòs, condutor. Os pedagogos aprendiam a escrita para poder ajudar as crianças em seu aprendizado. Hoje, é incompreensível uma dissociação entre a leitura e a escrita. A expressão de si e a compreensão do outro são competências complementares. Ler é fundamental para seguir regras com consciência, mas a expressão pessoal é vital, e a escrita é essencial para isso. A oralidade esvanece, a escrita permanece. Animais comunicam-se oralmente; a peculiaridade do ser humano reside na escrita. É preciso ler e compreender o mundo, mas, na escola da vida, temos que assinar o livro de presença. Decididamente, a escrita não é um luxo.

Fonte: Disponível em: http://nilsonjosemachado.net/mileuma.html. Acesso em: 17 maio 2013.

Um comentário:

  1. Eu, ao contrario dos meus colegas que tiveram influencias literarias, fui criada pela avó materna, ela fez somente o primeiro ano do primário, era semi-analfabeta, tudo que ela aprendeu foi devido a convivencia com pessoas, por ter um comercio varejista, ela tem um raciocinio muito bom, escreve com erros, mas nada que impedia a compreensão, é ótima nas contas, ninguem "passa a perna nela", ela sabe que o estudo é importante, por isso investiu em mim, porque os filhos também não deram continuidade aos estudos, restou eu, pra realizar o sonho dela de formar um filho, como eu fui neta/filha, e sempre gostei de estudar, consegui me formar, mas, também não sou muito fã de ler e escrever como ela, ai a escolha por exatas, mas, como tudo é ler e escrever, mesmo em exatas, aprendi a gostar.

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